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quarta-feira, 6 de maio de 2009

219 anos depois, no dia de são miguel...

...vai voltar a afogar-se o caramonico.

sexta-feira, 8 de maio. nove e meia da noite.
representação da história do caramonico. teatro de rua, no largo da cruz, na estreia do Grupo de Teatro Amador da Lérias. imperdível!



domingo, dia 10 é a festa de são miguel, onde se destaca a actuação do afamado agrupamento musical DM Music, que vai estrear o seu palco móvel. imperdível, também!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Palaçoulo : a origem do nome

é muito improvável, mas pode acontecer que, numa conversa com desconhecidos, quando fales de palaçoulo alguém diga que não conhece, que nunca ouviu falar, de onde raio veio esse nome? ele há gente para tudo. nesse caso, para o castigar por tamanha ignorância podes bombardeá-lo com toda a história da origem de tão belo nome que dá nome a tão bela terra:

Palaçoulo provém do étimo latino PALATIU, donde derivam o diminutivo PALATIOLU, que significa pequeno palácio, a que o povo foi passando a designar PALAÇOLO, PALAÇOULO (PALAÇUOLO, em mirandês).
Na carta de doação de D. Afonso Henriques, em Junho de 1172 ao rico-homem D. Pedro Mendes, de cognome "O Tio", segundo refere o Abade de Baçal, já constou o nome de Palaciolo. Também ali se refere que "é quase geral nos forais a palavra palácio para indicar a casa da Câmara Municipal, sonde se administrava a justiça e se pagavam multas e condenações impostas aos trangressores das disposições folarengas. Daqui resultam os onomásticos religiosos Paçó, Paços, Palácios e Palaçoulo aplicados a terras que tiveram jurisdição municipal". D. João III, em 1528, nos seus contratos, já empregou a designação de Palaçoulo.
Com a mesma origem etimológica de PALATIU ainda se conhecem, pelo menos, seis localidades denominadas Palazuelo, em espanha (Badajoz, Burgos, Cáceres, Leão, Zamora e Valhadolide), assim como um Palaciolo, na Itália.

[(mais um) breve resumo, a partir do livro "Mirandês e Caramonico", de José Francisco Fernandes]
[(mais uma vez) este resumo não dispensa a leitura completa, no referido livro]

quinta-feira, 8 de maio de 2008

dia de São Miguel / a história do caramonico

hoje era feriado em palaçoulo.
deveria ser feriado em palaçoulo.
dia de São Miguel, o santo padroeiro.
até há poucos anos era feriado. festa.
um preço a pagar pela industrialização, dirão.
sim, mas será certo?
adiante, que hoje é dia de festa...

São Miguel não é um simples santo padroeiro de Palaçoulo. é simbolo da terra e está directamente ligado à mais forte das identificações dos habitantes de palaçoulo - os caramonicos.

resumidamente, a partir da história descrtita no livro "Mirandês e Caramonico", de José Francisco Fernandes, a sempre curiosa história do caramonico:

1790, a armação da capela-mor ruiu. ao ruir, atingiu a imagem de S. Miguel, que ficou destruída. o mesmo aconteceu ao "caramono" derrubado sob os pés do arcanjo, já carunchoso e de figura horrível, a representar o diabo, também por lá denominado "demonho", "diabro", "caramono" e "caramonico". do santo e do mafarrico apenas encontraram pedaços dispersos, e vendo que não se podia aproveitar nada, o pároco mandou uns rapazes queimar os destroços. aos rapazes, não pareceu boa ideia e um deles disse aos outros "Bó, pois vamos agora a queimar isto? ao menos o que é do diabo atiramos com ele para a lagoa, que o havemos de afogar". os outros aceitaram e reforçaram: "Então, se o lançamos para a lagoa, lançamos para lá tudo". [a famosa lagoa existia onde é agora a casa do povo, embora ocupando um espaço mais amplo. lá bebiam as vacas e nadavam os porcos, que por esses tempos deambulavam pelas ruas] os rapazes fizeram um feixe dos destroços e atiraram com tudo para a lagoa. o feixe teimava em não se afogar e até parecia que "refunfunhegava" cada vez mais, provocantemente, à medida que a água se introduzia nos buracos feitos pelo caruncho e por umas "rachicas" que tinha o "caramono".
então, para que se afogasse e parasse de refilar, os rapazes começaram a atirar-lhe calhaus, incentivando-o:"Inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos?!" assim continuaram, até conseguirem que, com o peso das pedras lançadas em cima, o feixe fosse ao fundo. uma onda de alvoroço começou a correr pela aldeia sobre a pirraça, "perrice", ou simples divertimento dos rapazes, mas já não foram a tempo de remediar o que fosse.
o caso foi aproximadamente assim, simples, mas iria ficar na lembrança de gerações.

mas antes, um interlúdio...

na mesma altura do afogamento do caramonico, Palaçoulo fez uma comédia humorístico-satírica, usuais naqueles tempos, onde inventou uma história dos
escrinheiros de vilar seco (terra vizinha), que quizeram chegar à lua

[a comédia dos escrinheiros e a lua:
Às gentes de vilar seco chamavam escrinheiros porque muitas pessoas se dedicavam a fazer escrinhos, com palha e casca de silva. na comédia representada pelos de palaçoulo, muito concorrida por gentes das redondezas, os representadores, com grande alarido e espalhafato, propalaram que os de Vilar Seco tinham pretendido chegar à lua com os seus escrinhos, uns obrepostos sobre os outros, empilhados em rimas, verticalmente justapostas. juntaram todos os escrinhos que havia na terra, começaram a montar o projecto, e quando estavam mesmo a chegar à lua, os escrinhos acabaram. ao verem que estavam quase a chegar à lua e sem mais escrinhos, resolveram tirar os de baixo para acrescentar em cima. obviamente, veio tudo abaixo.
(*a razão porque a torre de escrinhos ruiu não é contada por José Francisco Fernandes, mas eu não sou politicamente correcto. aliás, isso é que dá piada à comédia...)]

a gente de vilar seco não gostou da piada e prometeu a Palaçoulo que "lhas havia de pagar", e respondeu com outra comédia, onde a povoação de vilar seco explorou a passagem relacionada com a lagoa. também perante grande afluência de espectadores, em atitude espalhafatosamente burlesca e zombeteira, os de Vilar Seco clamaram e proclamaram: "Bota Calhaus! bota calhaus, que lo habemos de afogar! Ah si! Inda refunfunhegas, caramonico de mil demonhos? Palaçuolo afoga santos! caramonicos, ah caramonicos de Palaçuolo! Estais sastifeitos, ah caramonicos de palaçuolo? Caramonicos, caramonicos, siempre caramonicos"!
A partir de aí, os palaçoluences, caramonicos ficaram. os de palaçoulo não gostavam, e a gente de fora que se atrevesse a chamar "caramonico", "refunfunhega" ou, simplesmente a acenar para o caso, apanhava imediatamente com a resposta, que chegou até ao presente, bem conhecida e, em certos casos, não muito agradável:

"O santo 'stá lá no céu,
e a imagem no altar
e os cornos do vosso avô
'stão na lagoa a nadar.
Ide-os de lá sacar!"


A gente de palaçoulo chama a esta resposta a "oração", com que se pretende (e se consegue) calar e arrumar os provocadores.
(*uma versão hardcore da oração, também não referenciada no livro de J.F.F, inclui um amigável "e vós, seus filhos da puta" antes do útlimo verso)

a história do caramonico permanece até hoje, e todos os anos a tradição é renovada dia 8 de Maio (agora, no domingo mais próximo).
como memória do acontecido há mais de 200 anos, durante a procissão, a imagem de São Miguel é inclinada por três vezes consecutivas, pelos quatro rapazes que carregam o andor, imitando atirar com o "santo" quando a procissão passa no local onde estava a lagoa. muitos padres não gostavam deste acto processional, esforçando-se por o impedir, mas em vão. o santo continua a "ser atirado".


Nota:
este resumo não dispensa a leitura da história completa, contada no livro referenciado.

sexta-feira, 7 de março de 2008

(ainda) a propósito do nome

no post inaugural deste espaço confessei a minha ignorância em relação ao significado da palavra "nilgas". na verdade, aparentemente não significa nada e a forma como foi originada não era muito simples de imaginar.
curioso com a origem do nome que dá nome ao blog, recorri aos escritos de quem melhor conhece a história da aldeia, incluindo a toponímia.
José Francisco Fernandes, conta em "Mirandês e Caramonico" que

"... a denominação de Nilgas poderá ter resultado, por aglutinação e corruptela, de Mil Águas -> Mil Agas -> Milgas -> Nilgas. De facto, antes do saneamento básico da povoação, ainda uma grande parte das suas águas pluviais escorriam para aquela caleja e terrenos adjacentes."

não deixa de ser curioso que mesmo após os saneamentos, a questão da caleija das nilgas ser um espaço de derrame de líquidos permanece actual, se bem que o líquido é outro.