hoje é dia de folar. já falei do dia de folar
aqui, não me vou repetir. hoje, dia de folar, lamento que o folar já não seja o que foi. por várias razões, não há condições para que a ronda de folar se continue a fazer na segunda feira, pelo menos condições que garantam uma grande participação. por isso, a minha sugestão era alterar o dia de folar para o sábado antes da páscoa. para além de que quase toda a gente terá disponibilidade, normalmente é nesse dia que se fazem os folares, pelo que estarão ainda mais frescos e saborosos. claro que a missa de domingo não se poderia continuar a realizar às nove da manhã, pois poderia acontecer um cruzamento temporal entre sagrado e profano com consequências imprevisíveis.
dirão que não, que o dia de folar é segunda de páscoa, que sempre foi assim e tal, que as tradições devem ser mantidas. certo,
as tradições devem ser mantidas, mas se a única forma de manter uma tradição é alterá-la, pois assim deve ser.
[esta proposta é, sobretudo, a pensar nas novas gerações. para que não passem pela juventude sem experienciar a magia de um dia de folar em palaçoulo]
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segunda-feira, 21 de abril de 2014
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
poço dos amieiros e poço de carvão
há relatos de mergulhos impossíveis de cinco metros de altura para metro e meio de água;
há estórias de bronzeados à base de manteiga;
há registos de provas de virilidade que não convém serem contadas em sítios públicos como este;
há muita gente de palaçoulo que sabe nadar porque aprendeu naqueles poços.
situados na ribeira de tortulhas, eram o sonho dos mais novos e o pesadelo dos pais que, com razão, temiam os perigos que os poços escondiam. ainda longe da aldeia, eram as bicicletas, as motas ou (à falta de melhor) as pernas que levavam os rapazes para aqueles paraísos de frescura e liberdade nas tórridas tardes de verão.
foram, em épocas diferentes, as piscinas de palaçoulo. carvão, primeiro. depois amieiros, a fase que eu apanhei. para uns, o poço de carvão é que era bom, para outros os amieiros é que eram porreiros. no fundo, parece-me que eram só configurações diferentes do mesmo triângulo: calor, água e juventude.
é verdade que, hoje, nas piscinas há melhores condições, meninas de biquíni, gelados, minis geladas e mais segurança. mas que bem que sabiam aquelas tardes de verão, longe de tudo, só com amigos.
há estórias de bronzeados à base de manteiga;
há registos de provas de virilidade que não convém serem contadas em sítios públicos como este;
há muita gente de palaçoulo que sabe nadar porque aprendeu naqueles poços.
situados na ribeira de tortulhas, eram o sonho dos mais novos e o pesadelo dos pais que, com razão, temiam os perigos que os poços escondiam. ainda longe da aldeia, eram as bicicletas, as motas ou (à falta de melhor) as pernas que levavam os rapazes para aqueles paraísos de frescura e liberdade nas tórridas tardes de verão.
foram, em épocas diferentes, as piscinas de palaçoulo. carvão, primeiro. depois amieiros, a fase que eu apanhei. para uns, o poço de carvão é que era bom, para outros os amieiros é que eram porreiros. no fundo, parece-me que eram só configurações diferentes do mesmo triângulo: calor, água e juventude.
é verdade que, hoje, nas piscinas há melhores condições, meninas de biquíni, gelados, minis geladas e mais segurança. mas que bem que sabiam aquelas tardes de verão, longe de tudo, só com amigos.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
burela
[nota prévia: embora a personagem merecesse por si só um ensaio filosófico, este pequeno texto refere-se apenas ao café, com o nome do dono]
-logo à noite em burela?
-claro.
nem era preciso perguntar, mas era só para confirmar.
depois de jantar, lá ia chegando toda a gente. e não era um chegar de ir tomar café, era chegar para ficar. estacionar. até onde a noite levar. onde a cerveja e a conversa, sobretudo a conversa, levar. e às vezes levava muito longe, muito tarde. por isso não era fácil explicar sem que soasse a mentira, ao chegar a casa às seis da manhã, que se tinha estado simplesmente no café, à conversa. também não devia ser fácil perceber, para alguém que tinha tomado café à noite, ao chegar para tomar o café da manhã, que o mesmo grupo de pessoas ainda estivesse sentado à volta da mesma mesa de há oito horas atrás. mas muitas noites eram assim, sobretudo ao fim de semana, e (claro) nas férias (nas longas noites de inverno, havia indivíduos que chegavam a estar doze horas lá...). após acesas negociações com o proprietário, conseguiu-se que fosse feito um profundo investimento, que traria melhores condições para o pessoal aguentar mais tempo: uma máquina de fazer tostas veio alterar a dieta alimentar de muita gente, que já estava habituada a comer moelas, orelha ou codornizes às duas da manhã. dada a estabilidade do pessoal, o horário de fecho passou das 2h para as 4h da manhã (desconfio muito que houvesse uma aldeia que tivesse um café aberto até às 4), e não era por isso que fechava muitos dias antes da hora.
muitas discussões aconteceram
poucas conclusões se alcançaram
muito combustível ficou por se gastar
muitas festas acabaram mais cedo
muitos engates ficaram por fazer
por se ficar ali a conversar
com amigos e prazer...
-logo à noite em burela?
-claro.
nem era preciso perguntar, mas era só para confirmar.
depois de jantar, lá ia chegando toda a gente. e não era um chegar de ir tomar café, era chegar para ficar. estacionar. até onde a noite levar. onde a cerveja e a conversa, sobretudo a conversa, levar. e às vezes levava muito longe, muito tarde. por isso não era fácil explicar sem que soasse a mentira, ao chegar a casa às seis da manhã, que se tinha estado simplesmente no café, à conversa. também não devia ser fácil perceber, para alguém que tinha tomado café à noite, ao chegar para tomar o café da manhã, que o mesmo grupo de pessoas ainda estivesse sentado à volta da mesma mesa de há oito horas atrás. mas muitas noites eram assim, sobretudo ao fim de semana, e (claro) nas férias (nas longas noites de inverno, havia indivíduos que chegavam a estar doze horas lá...). após acesas negociações com o proprietário, conseguiu-se que fosse feito um profundo investimento, que traria melhores condições para o pessoal aguentar mais tempo: uma máquina de fazer tostas veio alterar a dieta alimentar de muita gente, que já estava habituada a comer moelas, orelha ou codornizes às duas da manhã. dada a estabilidade do pessoal, o horário de fecho passou das 2h para as 4h da manhã (desconfio muito que houvesse uma aldeia que tivesse um café aberto até às 4), e não era por isso que fechava muitos dias antes da hora.
muitas discussões aconteceram
poucas conclusões se alcançaram
muito combustível ficou por se gastar
muitas festas acabaram mais cedo
muitos engates ficaram por fazer
por se ficar ali a conversar
com amigos e prazer...
sábado, 7 de novembro de 2009
biblioteca itinerante da fundação Calouste Gulbenkian
aqui em aveiro, numa rua perto da praça está estacionada há anos uma carrinha vermelha da biblioteca itinerante Calouste Gulbenkian. sempre que passo lá vem-me à lembrança a imagem de uma carrinha igual, que às quartas-feiras estacionava na praça de palaçoulo, durante anos, há muitos anos atrás. é daquelas imagens boas que perduram, como as imagens daquelas outras carrinhas de circo ou teatro amador, normalmente uma família, que de vez em quando chegavam à aldeia para uma actuação em troca da boa vontade do público.

chegava durante a tarde, aquela carrinha cheia de livros, com corredor no meio, conduzida por aquele simpático senhor de quem não recordo o nome, mas bem a imagem. chegavam as pessoas com os livros para entregar e com ideias de novos livros para levar. percorriam o corredor, escolhiam outros e levavam para casa. quando não aparecia mais ninguém a carrinha partia. e voltava noutra quarta-feira (penso que vinha de de duas em duas semanas).
até uma quarta-feira que a carrinha vermelha não apareceu. na próxima tão pouco. e nunca mais apareceu, sem aviso. e os livros que tinham sido requisitados na última aparição ficaram com quem os tinha requisitado. foi a última de muitas prendas que a biblioteca itenerante caloust goulbenkian deu a tanta gente.
[esta pequena memória, em jeito de agradecimento, é sobre palaçoulo, mas podia ser sobre tanta terra, sobretudo do interior, onde o acesso à cultura é tão complicado. a biblioteca itenerante levava, de forma gratuita, cultura, sonhos e novos mundos às pessoas. foi uma grandiosa iniciativa de uma fundação, mas essa é uma missão que pertence ao estado, e que nunca cumpriu.]

chegava durante a tarde, aquela carrinha cheia de livros, com corredor no meio, conduzida por aquele simpático senhor de quem não recordo o nome, mas bem a imagem. chegavam as pessoas com os livros para entregar e com ideias de novos livros para levar. percorriam o corredor, escolhiam outros e levavam para casa. quando não aparecia mais ninguém a carrinha partia. e voltava noutra quarta-feira (penso que vinha de de duas em duas semanas).
até uma quarta-feira que a carrinha vermelha não apareceu. na próxima tão pouco. e nunca mais apareceu, sem aviso. e os livros que tinham sido requisitados na última aparição ficaram com quem os tinha requisitado. foi a última de muitas prendas que a biblioteca itenerante caloust goulbenkian deu a tanta gente.
[esta pequena memória, em jeito de agradecimento, é sobre palaçoulo, mas podia ser sobre tanta terra, sobretudo do interior, onde o acesso à cultura é tão complicado. a biblioteca itenerante levava, de forma gratuita, cultura, sonhos e novos mundos às pessoas. foi uma grandiosa iniciativa de uma fundação, mas essa é uma missão que pertence ao estado, e que nunca cumpriu.]
quarta-feira, 17 de junho de 2009
a fuga
o pessoal novo parava todo no café A. todo, e era bastante pessoal. todas as noites, especialmente nos verões (que na altura eram grandes). o café A era mais moderno, tinha melhor televisão, mais diversão, passava por lá toda a gente, pessoal de fora, o pessoal novo queria era ambiente por isso parava no café A. porque era clientela forte e certa, o pessoal tinha (ou assumia) uma certa posição no café, achava que merecia atendimento melhor, mais consideração; os conflitos (quentes, mas sempre pacíficos) com os donos foram-se sucedendo até que um dia o copo entornou à custa das habituais reclamações pela prematura hora de encerramento do café, numa noite que não convidava a ir dormir cedo. dois ou três mais incendiários sugeriram que a partir desse dia deixassem todos de frequentar o café A. passariam a frequentar o café B. por nada de especial, porque sim. parecia conversa de fim de noite, de quem está chateado por não beber mais um fino, mas o certo é que no dia seguinte lá estava o pessoal todo no café B. e por lá ficaram, por anos e anos.
hoje, o pessoal ainda vai parando pelo café B, apesar de ter dispersado ao longo do tempo, num movimento normal de mercado, em nada comparável com a grande fuga.
hoje, o pessoal ainda vai parando pelo café B, apesar de ter dispersado ao longo do tempo, num movimento normal de mercado, em nada comparável com a grande fuga.
domingo, 17 de agosto de 2008
o basquetebol / o basquetebalde
há questão de uns anos, o basquetebol quase chegou a destronar o futebol como desporto rei, em palaçoulo.
tudo começou com o entusiamo de quatro ou cinco garotos pela NBA (na era Jordan), e que começaram a improvisar condições para praticar o desporto. tabelas de madeira ou paredes a servir de tabela e aros de bicicletas como cesto, sobre um terreno plano, de preferência de cimento ou alcatrão, e estava um campo feito. [um dos campos deu, inclusivamente, bastante polémica, pois a tabela estava situada precisamente por cima do lugar onde ficava estacionado o taxi local (o que, vendo a esta distância, era bastante estúpido). a tabela aparecia no chão, no dia a seguir voltava a estar lá, e por aí fora...]. receptivos ao entusiasmo dos jovens com tal jogo, e após alguns pedidos, a junta de freguesia coloca duas tabelas na, recém construída(e acimentada), praça, e embora sem qualquer marcação ali ficou construído um campo de basquetebol. jogou-se bastante lá, mas nunca chegou a explodir como modalidade praticada. no entanto deu origem a um curioso jogo, que animou durante uns anos as quentes noites de verão. o jogo era simples, baseado no chamado 'americano' (há outras designações), onde há uma ordem de jogadores a jogar à vez, e cada um tem que fazer o que fez o seu antecessor. se não conseguir tem um ponto, e por aí fora. só que em palaçoulo não eram pontos, eram baldes de água. quem quebrasse a cadeia de lançamentos convertidos de um dado sitio, encostava-se a uma das árvores e levava com um balde de água por cima. com a bica alí ao lado o processo era muito simples e dava muita pica (especialmente para quem despejava o balde). isto, jogado durante toda a noite, com cerveja à mistura, dava origem a muitos banhos e era normal ir-se para casa completamente encharcado, alguns até nús. nunca as árvores da praça cresceram tanto como nessa altura...
mas os baldes de água não eram exclusivos do jogo. tornaram-se um hábito de verão, às vezes de uma forma um pouco abusiva. estar a sair do café podia ser suficiente para levar com um balde de água por cima sem saber de onde. ninguém escapava, nem o dono do café, nem pessoal que nada tinha a ver com a brincadeira, nem pessoal de fora, que estavam lá de passagem e tinham ido apenas tomar café ou simplesmente em trabalho.
entretanto o entusiasmo pelo basquetebol esmoreceu, o juizo foi aumentanto, as tabelas foram apodrecendo na praça e as pesadas pedras que as seguravam foram parar às malas de alguns carros.
P.S. já agora, umas tabelas no pavilhão desportivo não ficavam nada mal, e ali não apodrecem...
tudo começou com o entusiamo de quatro ou cinco garotos pela NBA (na era Jordan), e que começaram a improvisar condições para praticar o desporto. tabelas de madeira ou paredes a servir de tabela e aros de bicicletas como cesto, sobre um terreno plano, de preferência de cimento ou alcatrão, e estava um campo feito. [um dos campos deu, inclusivamente, bastante polémica, pois a tabela estava situada precisamente por cima do lugar onde ficava estacionado o taxi local (o que, vendo a esta distância, era bastante estúpido). a tabela aparecia no chão, no dia a seguir voltava a estar lá, e por aí fora...]. receptivos ao entusiasmo dos jovens com tal jogo, e após alguns pedidos, a junta de freguesia coloca duas tabelas na, recém construída(e acimentada), praça, e embora sem qualquer marcação ali ficou construído um campo de basquetebol. jogou-se bastante lá, mas nunca chegou a explodir como modalidade praticada. no entanto deu origem a um curioso jogo, que animou durante uns anos as quentes noites de verão. o jogo era simples, baseado no chamado 'americano' (há outras designações), onde há uma ordem de jogadores a jogar à vez, e cada um tem que fazer o que fez o seu antecessor. se não conseguir tem um ponto, e por aí fora. só que em palaçoulo não eram pontos, eram baldes de água. quem quebrasse a cadeia de lançamentos convertidos de um dado sitio, encostava-se a uma das árvores e levava com um balde de água por cima. com a bica alí ao lado o processo era muito simples e dava muita pica (especialmente para quem despejava o balde). isto, jogado durante toda a noite, com cerveja à mistura, dava origem a muitos banhos e era normal ir-se para casa completamente encharcado, alguns até nús. nunca as árvores da praça cresceram tanto como nessa altura...
mas os baldes de água não eram exclusivos do jogo. tornaram-se um hábito de verão, às vezes de uma forma um pouco abusiva. estar a sair do café podia ser suficiente para levar com um balde de água por cima sem saber de onde. ninguém escapava, nem o dono do café, nem pessoal que nada tinha a ver com a brincadeira, nem pessoal de fora, que estavam lá de passagem e tinham ido apenas tomar café ou simplesmente em trabalho.
entretanto o entusiasmo pelo basquetebol esmoreceu, o juizo foi aumentanto, as tabelas foram apodrecendo na praça e as pesadas pedras que as seguravam foram parar às malas de alguns carros.
P.S. já agora, umas tabelas no pavilhão desportivo não ficavam nada mal, e ali não apodrecem...
quinta-feira, 3 de julho de 2008
a KGB/KJV
na primeira metade da década de 90 surgiu em Palaçoulo, de forma espontânea e sem data de início oficial, uma espécie de organização juvenil que veio abalar a ordem dominante...
foram apelidados de KGB, numa associação à antiga polícia soviética, mas assumiram o nome de KJV (só pra contrariar...)
movimentavam-se em grupo, normalmente de grandes dimensões, e invadiam tudo o que acontecia. passava-se algo com interesse, a kgb/kjv estava a controlar a cena. ou então estavam a dirigir-se para a cena. tomaram a noite de palaçoulo de assalto e os cafés, então dominados pelos 'grandes', ganharam clientes de peso. entravam e saiam de café em café, circulavam por trás-os-palheiros para não serem vistos (e para fumar - a única coisa má que se aprendeu na kgb/kjv). se os cafés fechavam, havia muito terreno, tempo e vontade para continuar a noite.
mas não se ficavam apenas por palaçoulo.
com um renault 12, uma carrinha toyota, uma cassete dos depeche mode e nenhuma carta de condução (no final, acho que duas), qualquer local estava ao seu alcance. chegavam a uma festa e invadiam. não há estacionamento à porta, estaciona-se nas escadas na igreja. se não se passava nada na festa, iam para a outra festa, ou para outro café. ou iam fazer a sua própria festa. as festas privadas sucediam-se, só era preciso um motivo. chegava uma amiga para uns dias de férias em palaçoulo dava logo motivo para uma festa de recepção e outra de despedida. no monte, quase sempre, às vezes em casas.
a kgb/kjv começou a ser notícia; passava-se algo de estranho, 'foi coisa da kgb/kjv', a aldeia amanhecia desordenada 'deve ter sido a kgb/kjv', musica ou baralho a altas horas da madrugada, 'era a kgb/kjv'. uma cerejeira que aparecia limpinha de manhã ou uns melões que evaporavam, 'foi a kgb/kjv de certeza'. justa ou injustamente, os suspeitos do costume.
toda a gente falava da kgb/kjv, mas ninguém sabia muito bem que entidade era aquela, apesar de se conhecerem os seus membros.
não eram uma polícia secreta, mas sabiam tudo o que se passava.
não eram um grupo terrorista, mas provocavam autêntica destruição em alguns pomares.
não eram uma organização desportiva, mas participaram em torneios, obtendo inclusive um honroso (e muito surpreendente) 3º lugar no famoso torneio de futebol 6 de palaçoulo;
não eram um gang, mas não desaproveitam situações favoráveis a dar um bom golpe.
não eram uma máfia, mas de vez em quando envolviam-se em esquemas complicados.
não eram uma associação cultural, mas organizavam festas alternativas, algumas delas bastante undeground.
nunca ninguém percebeu muito bem que tipo de coisa era a kgb/kjv,
mas eu desconfio
que era apenas um grupo de amigos na idade de começar a conhecer a vida e a gostar da coisa.
entretanto, a kgb/kjv foi-se desmembrando de forma natural à medida que foi perdendo o sentido de existir. mas, cuidado, que eles ainda andam por aí. uns casaram, outros foram papás, outros as duas coisas, outros nem por isso e outros escrevem em blogs memórias de um tempo único, vivido no momento ideal, com a intensidade merecida.
agradeço aos membros da kgb/kjv por isso. eles sabem quem são...
Depeche Mode - Personal Jesus
foram apelidados de KGB, numa associação à antiga polícia soviética, mas assumiram o nome de KJV (só pra contrariar...)
movimentavam-se em grupo, normalmente de grandes dimensões, e invadiam tudo o que acontecia. passava-se algo com interesse, a kgb/kjv estava a controlar a cena. ou então estavam a dirigir-se para a cena. tomaram a noite de palaçoulo de assalto e os cafés, então dominados pelos 'grandes', ganharam clientes de peso. entravam e saiam de café em café, circulavam por trás-os-palheiros para não serem vistos (e para fumar - a única coisa má que se aprendeu na kgb/kjv). se os cafés fechavam, havia muito terreno, tempo e vontade para continuar a noite.
mas não se ficavam apenas por palaçoulo.
com um renault 12, uma carrinha toyota, uma cassete dos depeche mode e nenhuma carta de condução (no final, acho que duas), qualquer local estava ao seu alcance. chegavam a uma festa e invadiam. não há estacionamento à porta, estaciona-se nas escadas na igreja. se não se passava nada na festa, iam para a outra festa, ou para outro café. ou iam fazer a sua própria festa. as festas privadas sucediam-se, só era preciso um motivo. chegava uma amiga para uns dias de férias em palaçoulo dava logo motivo para uma festa de recepção e outra de despedida. no monte, quase sempre, às vezes em casas.
a kgb/kjv começou a ser notícia; passava-se algo de estranho, 'foi coisa da kgb/kjv', a aldeia amanhecia desordenada 'deve ter sido a kgb/kjv', musica ou baralho a altas horas da madrugada, 'era a kgb/kjv'. uma cerejeira que aparecia limpinha de manhã ou uns melões que evaporavam, 'foi a kgb/kjv de certeza'. justa ou injustamente, os suspeitos do costume.
toda a gente falava da kgb/kjv, mas ninguém sabia muito bem que entidade era aquela, apesar de se conhecerem os seus membros.
não eram uma polícia secreta, mas sabiam tudo o que se passava.
não eram um grupo terrorista, mas provocavam autêntica destruição em alguns pomares.
não eram uma organização desportiva, mas participaram em torneios, obtendo inclusive um honroso (e muito surpreendente) 3º lugar no famoso torneio de futebol 6 de palaçoulo;
não eram um gang, mas não desaproveitam situações favoráveis a dar um bom golpe.
não eram uma máfia, mas de vez em quando envolviam-se em esquemas complicados.
não eram uma associação cultural, mas organizavam festas alternativas, algumas delas bastante undeground.
nunca ninguém percebeu muito bem que tipo de coisa era a kgb/kjv,
mas eu desconfio
que era apenas um grupo de amigos na idade de começar a conhecer a vida e a gostar da coisa.
entretanto, a kgb/kjv foi-se desmembrando de forma natural à medida que foi perdendo o sentido de existir. mas, cuidado, que eles ainda andam por aí. uns casaram, outros foram papás, outros as duas coisas, outros nem por isso e outros escrevem em blogs memórias de um tempo único, vivido no momento ideal, com a intensidade merecida.
agradeço aos membros da kgb/kjv por isso. eles sabem quem são...
Depeche Mode - Personal Jesus
quarta-feira, 28 de maio de 2008
a parabólica de sorragas
palaçoulo sempre de foi uma terra de ponta. também na tecnologia. nos tempos em que ainda não havia sportTv, nem sequer tv cabo, ainda nos principios da televisão por satélite, nos tempos em que o Benfica chegava a finais dos clubes campeões europeus, sorragas, com bom olho para o negócio, instala uma parabólica gigante no seu café. era a novidade total. havia uma ou outra parabólica por miranda e tal, mas nada que se comparasse com aquela. lá, muita gente viu pela primeira vez a mtv, a eurosport, a cnn, a rtl (que tinha uns filmes interessantes nas noites de fim de semana, ainda que em alemão e sem legendas) e tantos outros canais. mas o que fazia realmente a diferença era o futebol. os jogos das competições europeias não davam sempre na RTP mas davam algures num canal da parabólica de sorragas, provavelmente num canal do país da equipa adversária. as enchentes, em dias de grandes jogos, sucediam-se. vinha pessoal dos três concelhos para ver a bola. o café era grande e aguentava muita gente, até um dia que aquilo rebentou...
meia final da liga dos campeões (antes, taça dos clubes campeões europeus), 1990. benfica-marselha. o célebre jogo do célebre golo do vata, com a mão. não creio estar a exagerar muito se disser que estavam perto de 1000 pessoas para ver o jogo. obviamente, não cabia tanta gente no café. a solução foi instalar outra televisão na rua, no extinto cureto onde centenas de pessoas festejaram a passagem à final. aquele golo do vata, a quantidade de cerveja pelo ar, aquela alegria toda naquele estádio improvisado em plena praça, nunca esqueci.
para rever:
[o sucesso económico da parabólica, por via do futebol, foi a tal ponto enebriante, que se tentou fazer daquilo um espectaculo, com bilhete a pagar, em sala privada. felizmente, o bom senso das pessoas não permitiu sucesso à iniciativa]
meia final da liga dos campeões (antes, taça dos clubes campeões europeus), 1990. benfica-marselha. o célebre jogo do célebre golo do vata, com a mão. não creio estar a exagerar muito se disser que estavam perto de 1000 pessoas para ver o jogo. obviamente, não cabia tanta gente no café. a solução foi instalar outra televisão na rua, no extinto cureto onde centenas de pessoas festejaram a passagem à final. aquele golo do vata, a quantidade de cerveja pelo ar, aquela alegria toda naquele estádio improvisado em plena praça, nunca esqueci.
para rever:
[o sucesso económico da parabólica, por via do futebol, foi a tal ponto enebriante, que se tentou fazer daquilo um espectaculo, com bilhete a pagar, em sala privada. felizmente, o bom senso das pessoas não permitiu sucesso à iniciativa]
sexta-feira, 28 de março de 2008
folar
se há (ou havia) noites mágicas em palaçoulo, a noite de folar (2ª feira de páscoa) é seguramente uma delas. daquelas noites em que tudo, de inesperado, pode acontecer. por outro lado, também uma daquelas noites em que algo, esperado, sempre acontece: bebedeiras.
na noite de folar, palaçoulo é assaltado pelos locais (todos, mas especialmente os mais novos), varrendo a aldeia de ponta a ponta, invadindo casa a casa, comendo e (sobretudo) bebendo, deixando rastos de todos os níveis pelas ruas, casas, e casas de banho.
é uma noite de primeiras vezes.
quantos (e principalmente quantas) chegaram a casa de manhã pela primeira vez na noite de folar?
quantos beberam pela primeira vez uma cerveja ou apanharam a sua primeira bebedeira?
e quantos, talvés por isso, ganharam coragem para falar com aquela pessoa com quem desejavam meter conversa há tanto tempo?
para quantos foi, nessa noite, o primeiro vómito?
e, mais interessante, o primeiro beijo?
ou, menos interessante mas não menos importante, a primeira tampa?
e quantas outras coisas aconteceram pela primeira vez na noite de folar. e para quanta gente...
por força de variadas situações, como o facto de muita gente já estar fora nesse dia (a trabalhar, estudar, etc...) ou por falta de vontade, a festa não tem sido tão poderosa nos últimos anos. no entanto, continua a ser potente. porque folar é folar e - isso não falha - há sempre alguém a vomitar!
na noite de folar, palaçoulo é assaltado pelos locais (todos, mas especialmente os mais novos), varrendo a aldeia de ponta a ponta, invadindo casa a casa, comendo e (sobretudo) bebendo, deixando rastos de todos os níveis pelas ruas, casas, e casas de banho.
é uma noite de primeiras vezes.
quantos (e principalmente quantas) chegaram a casa de manhã pela primeira vez na noite de folar?
quantos beberam pela primeira vez uma cerveja ou apanharam a sua primeira bebedeira?
e quantos, talvés por isso, ganharam coragem para falar com aquela pessoa com quem desejavam meter conversa há tanto tempo?
para quantos foi, nessa noite, o primeiro vómito?
e, mais interessante, o primeiro beijo?
ou, menos interessante mas não menos importante, a primeira tampa?
e quantas outras coisas aconteceram pela primeira vez na noite de folar. e para quanta gente...
por força de variadas situações, como o facto de muita gente já estar fora nesse dia (a trabalhar, estudar, etc...) ou por falta de vontade, a festa não tem sido tão poderosa nos últimos anos. no entanto, continua a ser potente. porque folar é folar e - isso não falha - há sempre alguém a vomitar!
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