quinta-feira, 28 de outubro de 2010

o gato da gaita*

era uma vez (é assim que todas as estórias devem começar) um velho gato que vivia com os seus três filhos na rua dos gatos (é ali que todos os gatos devem morar), em palaçoulo (é lá que toda a gente gostaria de morar). com seis vidas esgotadas e a última a chegar ao fim, o velho gato decidiu que era altura da distribuição de herança. ao filho mais velho, o gato deixaria casa e terrenos. ao filho do meio entregaria o mapa completo dos trilhos dos ratos na região, que lhe garantiria barriga cheia para a vida. ao filho mais novo daria uma velha gaita de foles, calada há muitos anos, desde o dia em que o raio de um raio de trovoada lhe tirou a gata amada, e mãe de seus três filhos, enquanto passeavam pela ribeirica. dias depois da conversa com os filhos, o velho gato morreu e os filhos foram à sua vida. os dois mais velhos sem problemas, com futuro garantido. o gato mais novo ficou sem saber o que fazer, agarrado à única coisa que tinha - a velha gaita de foles. tinha ainda uma vaga ideia de ouvir aquela coisa tocar, mas foi por instinto e não por qualquer memória visual ou ensinamento antigo que começou a tocar tal instrumento. no início, enquanto a afinação não era a melhor, escondia-se nos montes a praticar, num misto de vergonha e respeito pelos involuntários ouvintes. mas depressa aquele som começou a ficar limpo e encantador, de tal forma que as gatas com cio começaram a ser atraídas por tão bela melodia e acorriam em romaria ao monte onde o gato treinava. e mais gatas iam chegando, com cio ou sem ele, e não queriam saber de outros gatos, senão daquele que tão bem tal gaita tocava. e todas se lhe ofereciam, mas ele não queria saber de outras gatas, senão daquela que uma vez tinha visto, e nenhuma vez esquecido, à porta daquele palácio do reino de seu pai, e seu reino. e apareciam todas as gatas do reino, menos a princesa, e todos os dias ele a procurava com o olhar, no meio daquela multidão que crescia a cada dia. até que numa tarde, ele a descobriu meio escondida por um arbusto. e no dia seguinte voltou a aparecer, e cada vez se aproximava mais e os olhares que iam trocando antecipavam a paixão que acabou consumada numa noite em que ela fugira de casa, enquanto os pais pensavam que dormia. tinha agora a sua amada ao lado, mas as outras gatas não desarmavam, e não deixavam respirar a relação. e os outros gatos já começavam a desesperar, sem gata que os procurasse, e rogavam pragas ao gato e à gaita. a situação ameaçava ficar fora de controlo, até que o gato da gaita teve uma ideia: iria ensinar os gatos da terra a tocar gaita-de-foles, para assim dividir a atracção feminina. e assim fez, começou a ensinar, e todos os gatos apareceram, e todos aprenderam (uns melhor, outros menos afinados, mas aprenderam), e recomeçaram a conquistar as suas gatas, e a libertar o gato da gaita para o seu grande amor. o equilíbrio ficou estabelecido, e todos foram muito felizes para sempre (é assim que todas as estórias devem acabar).

foi por causa desta história que, muitos anos mais tarde, surgiu uma escola de música tradicional (lérias) com sede no número um da rua dos gatos, em palaçoulo.
ou então foi ao contrário,
e foi por causa do aparecimento de uma escola de música tradicional (lérias) com sede no número um da rua dos gatos, em palaçoulo, que, poucos anos mais tarde, surgiu esta estória.

*estória (muito livremente) inspirada na popular "o gato das botas" e publicada na edição nº1 da leriazine, a fanzine da lérias, que por esta altura já deve estar esgotada (senão, corram a comprar).

2 comentários:

Rolando disse...

Oi. Estive por aqui. Muito legal. apareça por lá. abraços.

Lérias - Associação Cultural disse...

Ainda há algumas fanzines... mas já está na altura de sair a edição II, prepara algo até Janeiro...
Abraço!